No momento em que o campeonato acaba de iniciar a segunda volta, o técnico Luís Miguel abordou os principais temas da época até então. Da euforia do excelente arranque de campeonato até ao atual momento de forma da equipa, não esquecendo a sua carreira e a sua forma de estar no Futebol, bem como o convite que lhe foi endereçado pelo Grupo Desportivo Renascente para abraçar este projeto.

“Ser treinador é ter demasiada responsabilidade para não nos empenharmos ao máximo em ajudar aqueles que nos são confiados em treinar.”
Luís Soares – Antes de mais quero agradecer-lhe o fato de se ter disponibilizado para conceder esta entrevista à nossa página oficial. Começaria por lhe perguntar acerca da sua carreira, quem é o Luís Miguel? Quando decidiu começar a treinar? Fale-nos um pouco de si…
Luís Miguel – Tirei o curso de Treinador em 1994 depois de jogar futebol profissional em alguns clubes. O ser treinador começou naturalmente, porque tinha e tenho grande paixão e entusiasmo por este desporto.
Ao longo destes anos tem sido uma constante procura de cada vez mais conhecimento sobre a forma de treinar. Ser treinador é ter demasiada responsabilidade para não nos empenharmos ao máximo em ajudar aqueles que nos são confiados em treinar. Daí procurar sempre mais e mais informação. Prazer em treinar é isso mesmo, conseguir ajudar os outros.

LS – Quando surgiu o convite do Grupo Desportivo Renascente, hesitou ou decidiu abraçar prontamente este novo projecto?
LMNo inicio houve algumas reticências, porque foi muito difícil construir o plantel. Posso dizer que duas semanas antes de começarmos a treinar estive para declinar o convite, porque não tinha plantel. Felizmente o Presidente meteu mãos à obra e conseguimos aos poucos construir o plantel que temos hoje.

LS – O Renascente é uma equipa recém promovida a este campeonato, á há vários anos que não militava neste patamar, isso fez com que o convite para vir treinar este clube se torna-se ainda mais aliciante?
LM – Há dois anos, tinha tudo acertado para vir treinar o Renascente, mas acabou por não haver campeonato e o projecto não se concretizou. 
Este ano com o clube na 1ª Divisão e com um excelente relvado, não podia recusar o convite e ainda hoje penso que foi a melhor decisão. Cada vez mais estou empenhado em deixar este clube melhor do que quando aqui cheguei. Acima de tudo, continuo todos os dias com uma alegria imensa em vir treinar a este clube. Sinto que o meu trabalho é respeitado sem interferências e isso é algo que hoje em dia não se encontra em muitos clubes.
“Acima de tudo, continuo todos os dias com uma alegria imensa em vir treinar a este clube.”

LS – Como vê a estrutura deste clube e as pessoas que nele trabalham para que nada falte às equipas?
LMUm dos objectivos do convite foi também ajudar as pessoas a criar uma estrutura para que o clube possa fixar-se na 1ª Divisão. Uma infra-estrutura urgente é um posto médico. Hoje em dia com o volume de treinos e jogos é essencial que o clube crie esta infra-estrutura o mais rápido possível. De resto, toda a gente ligada ao clube está empenhada para que nada nos falte.

LS – São vários os jogadores oriundos do Algarve que o acompanham semanalmente após terem ingressado na nossa equipa. Foi fácil trazer para o Renascente estes jogadores que acrescentam qualidade?
LMOs jogadores procuram sempre novos desafios e todos eles se interessaram por esta nova etapa.


“O Renascente é hoje admirado e respeitado por todas as equipas do nosso campeonato pelo futebol que pratica e ter conseguido isso na primeira época de 1ª divisão, não é fácil.”

LS – A equipa teve um arranque de campeonato de sonho, venceu as três primeiras partidas, duas delas frente a adversários geograficamente próximos, que galvanizaram ainda mais a massa associativa, tendo sido feitos nove dos dezanove pontos que temos neste momento. Jogadas que estão catorze jornadas, a equipa parece ter tido uma quebra de rendimento, em especial nos últimos jogos. Concorda?
LMConcordo. É um fato. Sempre tive consciência da equipa que tinha. Nunca passei a mensagem de que iria lutar por objectivos que hoje no Renascente são inatingíveis. Os adeptos e sócios do Renascente só podem estar orgulhosos do percurso que estamos a fazer. Estar em 6º lugar num campeonato que é muito competitivo, não mancha em nada todo o trabalho feito até aqui. O Renascente é hoje admirado e respeitado por todas as equipas do nosso campeonato pelo futebol que pratica e ter conseguido isso na primeira época de 1ª divisão, não é fácil. Tudo isso foi conseguido com o trabalho sério e muito sacrifício por parte dos jogadores. Quem treina como eles treinam todos os dias, tem mais probabilidades de ganhar do que perder.
A quebra de rendimento aconteceu depois da vitória sobre o Castrense. O “mal” do Renascente é o mal de muitas outras equipas. Depois de resultados fabulosos em que se superam, entram num estado de euforia muito difícil de controlar. Se fosse fácil de resolver, não havia tantas equipas a não conseguirem sair de lá. “Crescemos nos momentos de fracasso e pioramos quando somos bem-sucedidos. O sucesso é deformante, relaxa, engana, torna-nos piores, faz com que nos enamoremos por nós próprios” Isto são palavras do Marcelo Bielsa, um treinador do qual admiro muito o seu trabalho. Honestamente penso que estas palavras explicam a quebra de rendimento do Renascente nos últimos jogos.

LS – Acha que por temos entrado bem no campeonato, e pela qualidade que a equipa evidência na maioria dos jogos, isso fez com que o adeptos se tornassem exigentes, ou vê isso como algo natural de quem quer o melhor para o seu clube?
LMJá ficou demonstrado que essa qualidade não é sinónimo de ganhar jogos. Acredito também que é por a equipa ter essa qualidade de jogo que mais adeptos a acompanham. Os adeptos querem sempre ganhar, isso é natural. Também é bom serem exigentes, obriga-nos a ser melhores, a não relaxar. Agora á um valor que os adeptos têm sempre de ter em conta, o respeito. Respeito pelo trabalho dos jogadores durante a semana, respeito pela atitude dos jogadores durante os jogos, respeito pelos jogadores na hora da derrota. Faz parte do desporto perder. Ninguém quer mais ganhar do que os próprios jogadores, só que isto não é como nós queremos, se fosse, os jogos acabavam sempre empatados.

LS – Voltemos um pouco atrás. No jogo referente à deslocação a Cuba, deixou alguns dos habituais titulares fora da convocatória, quer falar um pouco sobre isso?
LMSempre pensei que isso não era assunto, mas posso explicar sem problema nenhum. Todos os jogadores são diferentes e com os treinos vamos conhecendo-os. Tenho de me adaptar um pouco, mas há uma regra essencial “justiça”. Posteriormente há também um processo de educação, mas permite que os jogadores percebam que há regras, disciplina… e depois de tudo isto perceber que quem manda são os treinadores. O que aconteceu nesse jogo foi uma consequência do que se passou durante a semana. Regras colectivas quebradas e justiça para quem não as quebrou. Para mim são situações simples de se resolver. Para poderes ganhar mais vezes, tens de reunir uma série de factores, em que o Renascente está longe de os ter.


“Foi uma surpresa agradável ver a ligação tão forte entre adeptos e equipa.”

LS – Quando decidiu vir para São Teotónio, imaginava um clube que a este nível move-se assim tantos adeptos dentro e fora de portas?
LMFoi uma surpresa agradável ver a ligação tão forte entre adeptos e equipa. Em qualquer campo que nós vamos, eles estão lá a nos apoiar e isso de fato é mais responsabilidade e motivo de orgulho para todos nós.


“(...) a minha porta está sempre aberta para falar com os jogadores sobre as minhas decisões.”


LS – Diogo Jesus é visto por muitos como um dos principais obreiros da subida de divisão do Renascente e muitas são as vozes que se manifestam quando este jogador fica no banco. Quando entra costuma responder de forma positiva e com golos. Quais os motivos para não apostar mais vezes neste jogador de início? 
LM – Principais obreiros da subida de divisão do Renascente foram todos aqueles que trabalharam arduamente para que isso acontecesse (Jogadores, Treinadores e Directores). Nunca compreendi essa forma de individualizar os sucessos das equipas, mas respeito, são opiniões. Nada me move pessoalmente com qualquer jogador, eles sabem isso, porque a minha porta esta sempre aberta para falar com os jogadores sobre as minhas decisões. A reposta a essa pergunta está no fato de haver uma pergunta dessas. Os jogadores não são as estrelas, a única estrela é a equipa.
Poderia aqui enumerar uma série de factores técnico-tácticos ou auto-exclusão do grupo, mas preferi fazê-lo pessoalmente com o Diogo Jesus. 
Tento ser o mais justo possível, cometendo por vezes erros, mas tomando sempre as decisões em função do melhor para a equipa. Dentro de campo são todos tratados de igual forma. Fora de campo é normal conviver mais com uns do que outros, mas felizmente ao longo da minha carreira como treinador sempre soube separar as coisas e as minhas decisões provam isso. 
Se é para falar publicamente de jogadores preferia falar do Flávio (Jurema). Na época passada fez muitos jogos, este ano comigo tem cerca de 40 minutos de jogo e todos os dias está lá para treinar sempre com a mesma determinação. Miguel Nunes, que anda a estudar em Portimão e só ele sabe os sacrifícios que faz para não faltar aos treinos. O Hélder Duarte, até hoje ainda não jogou e desde que começou a treinar em Outubro, faltou a 1 treino, porque estava doente e continua a treinar como se tivesse jogado todos os jogos. Jogadores destes são os principais responsáveis dos sucessos das equipas.

LS – Sabemos que não é uma regra faze-las, mas qual a razão de não efectuar as três substituições em cerca de metade dos jogos que já fez?
LMNunca tomo decisões (substituições), para agradar seja quem for. Nem sempre a equipa precisa de ser mexida, mesmo quando as coisas correm mal. Posso pôr três defesas a aquecer e quando alguém entrar a equipa fica mais ofensiva. É uma questão de estratégia e sistema de jogo. Por exemplo em Castro Verde jogamos com cinco defesas e a equipa melhorou muito ofensivamente. A dinâmica colectiva é que faz a táctica. Era bom que os adeptos deixassem de pensar no individual e analisassem o colectivo. É muito fácil criticar o individual, mas analisar o comportamento colectivo é mais difícil. Há posições em campo que raramente as mexo, só em situações muito especiais, o 1,2,3,4,5,6 e 8, porque são a estrutura defensiva da equipa, veja quantas sobram! E se os jogadores estão empenhados em resolver a situação, vou alterar para quê? Sei que é muito discutível, mas são as minhas ideias de jogo, é o meu sistema de jogo, sou eu que trabalho com eles durante a semana e raramente os jogadores me surpreendem quando entram em campo. Sei aquilo que eles são capazes de fazer.

LS- O campeonato acaba de chegar ao fim da primeira volta, o Renascente é 6º classificado com 19 pontos. Espera fazer mais pontos nesta segunda volta do que na primeira?
LMSim, espero fazer mais pontos. A equipa tem tudo para vir a melhorar e penso que é possível fazer mais pontos. Vamos ver como a equipa vai reagir a esta fase menos boa.

LS – O Renascente encontra-se ainda na Taça do Distrito, após eliminar um dos favoritos à vitória, o Castrense. Qual o objectivo a que se propõe nesta competição e até onde podem sonhar os adeptos?
LMPrimeiro temos de ganhar ao Guadiana, uma equipa que nos criou mais dificuldades em casa que o Castrense, por isso os adeptos não pensem mais uma vez que isto vai ser sempre a aviar. É um jogo a eliminar em que ninguém tem nada a perder e tenho a certeza que vai ser um jogo de grau de dificuldade elevadíssimo.

LS – Quer deixar aqui uma mensagem aos nossos adeptos sobre o seu apoio até ao momento e o que podem esperar até Maio?
LMRespeitem e acarinhem os jogadores porque todos já sentem o clube como se jogassem aqui há anos.